
O cotidiano da serra gaúcha está encharcado de vinho. Pela diluição da bebida na cultura e no sangue dos italianos, a região virou templo oficial de Baco no Brasil e durante décadas teve quase o monopólio das taças no país.
Mas as videiras esticadas para outras fronteiras, dentro e fora do Estado, o pinga-fogo dos vinhos importados e até mesmo a escalada da concorrência no próprio polo têm feito as vinícolas serranas colocarem a mão no mosto: a ordem é rimar profissionalização com diversificação.
Das aconchegantes cantinas familiares aos impérios do vinho, cada empresa tem apostado numa receita própria para buscar lugar à taça. Mas duas grandes tendências despontam: a migração do vinho para o espumante e a esticada dos negócios para o turismo, no caso, o enoturismo.
Escancarar as entranhas das vinícolas para o olhar de visitantes curiosos foi uma mudança em cadeia nas empresas serranas, que respondem por metade da produção de vinhos do Brasil. É quase uma regra nos principais polos mundiais de Baco que também tem adesão maciça no Estado, com a construção de hotéis, restaurantes e pousadas pelas vinícolas ou em torno delas.
– O turismo é ótima estratégia para fixação de marca, além de criar novos consumidores – define o presidente do Instituto Brasileiro do Vinho, Carlos Paviani.
Maior vinícola do Brasil em volume, a Aurora aproveitou suas históricas instalações em Bento Gonçalves para promover uma imersão dos visitantes na cultura do vinho. Isso foi há mais de 40 anos, e hoje a empresa recebe quase 150 mil pessoas por ano no seu complexo. Fora do perímetro urbano, a Casa Valduga foi a pioneira. Juarez Valduga construiu sua primeira pousada nos anos 1980: hoje já são mais de meia dúzia, e os quartos já têm reservas até agosto.
– Criamos a estrutura de enoturismo como uma porta de entrada do consumidor – diz Juarez Valduga, que começou vendendo garrafões porta a porta, em Porto Alegre.
Em sua estrutura no Vale dos Vinhedos, a vinícola oferece um restaurante que só utiliza matérias-primas cultivadas entre as videiras, vinhedos centenários e aquela que Juarez Valduga brinda como a maior cave de espumantes da América Latina, com capacidade para hospedar 6 milhões de garrafas. Em breve, a empresa prepara a construção de um parque temático.
– Não podemos ter melhor vitrina do que a vinícola. Muitos turistas estão dando seus primeiros goles de vinho aqui – aponta Juarez.
Gigantes do setor também mergulharam no enoturismo. Do alto da planta de vinificação erguida pela Salton em Tuiuty, no Vale do Rio das Antas, visitantes acompanham a produção do vinho, sem interferir na rotina da vinícola. O passeio termina, claro, com uma degustação didática.
– O projeto foi todo planejeado pensando no turismo – diz Daniel Salton, presidente da vinícola.
Só no último feriadão, de Corpus Christi, 2 mil visitantes deslizaram entre os parreiras e tanques da Salton em Tuiuty.