Samba esquema lento

27 de agosto de 2009 | N° 16075 - Fonte Zero Hora

OPINIÃO

 

 

Vagarosa é vagaroso. Devagar como o cavaquinho de Rodrigo Campos que emoldura a voz de Céu na vinheta de abertura, Sobre o Amor e seu Trabalho Silencioso. Lento como a indolente batida do reggae, que permeia quase toda a gravação. Demorado como o desejo que a promessa não confirma, pois se Céu sinaliza com um samba esquema novo – não por acaso este é o nome do disco de estreia de Jorge Ben de onde ela pinçou Rosa Menina Rosa –, o que surge deste CD são variações, ora monótonas, de um mesmo tema.

O disco tem 13 faixas, algumas curtinhas, com menos de um minuto, outras com quase cinco minutos. Mas a impressão é que todo o trabalho está unido por uma única proposta. Quase todo o CD – especialmente canções como Papa, Grains de Beauté e Cangote (dos versos “Vagarosa me espreguiço / E o que sinto / Feito bocejo vai pegar”) – há uma opção pela lentidão, evitando o canto com tom exacerbado e valorizando a cadência.

O que Céu faz é samba? Pode até ser. Mas o esquema novo que ela privilegia faz com que Vagarosa seja uma refeição sonora feita em fogo brando e adequada ao paladar do público estrangeiro. Não que o samba precise de aceleração, de velocidade. Martinho da Vila e – muito antes dele – Dorival Caymmi já demonstraram a beleza de um samba lento. Céu leva alguns desses ensinamentos à máxima potência, fazendo com que suas composições surjam de uma levada, de um clima. Vagarosa, assim, é um álbum pautado por silêncios e pausas, quase que afinado com o nome hippie da cantora, e com uma proposta viajandona. Como ela canta em Espaçonave: “Pode mandar embrulhar / Que eu quero te levar / Pra viagem”. (Márcio Pinheiro)

 

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